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Trabalho sobre drogas



POR ONDE COMEÇAR A REFORMULAÇÃO


(Fonte: Veronica Barrozo do Amaral*, Jornal do Brasil, http://www.jb.com.br/drogas-e-duvidas/noticias/2012/11/22/por-onde-comecar-a-reformulacao-2/, ilustrações nossas)



O dependente químico, desde o início do uso de drogas, precisa e vai direcionando seus hábitos, seu comportamento, para que haja espaço em sua vida para esta prática. Com o progredir de sua doença, seu modo de vida se volta para proteger esse abuso, ou seja, desde muito tempo  este adicto, que agora quer a abstinência, teve sua maneira de viver modificada e voltada para favorecer o uso de drogas.

Ao começar a recuperação, se depara com a incompatibilidade desta com seu modo de vida. Para manter sua abstinência, tem que mudar, precisa se reformular. É verdade que, por si só, a interrupção do uso já representa uma grande mudança, e também são de grande ajuda as primeiras providências, logo de início incentivadas por um tratamento específico e sugeridas pelos grupos anônimos, como, por exemplo, evitar lugares, pessoas e hábitos que favoreçam o uso. Mas ainda é muito pouco para a gigantesca tarefa de alcançar a sobriedade.

Como começar então uma consistente reformulação? E por onde, já que cada um modificou a sua vida de uma maneira diferente? Os 12 passos dos grupos anônimos, nesta hora, sugerem como guia os sete pecados capitais. Diante desta sugestão, muitas vezes a reação de quem precisa mudar  é de reprovação e rejeição instantâneas. Pensando ser esta, no  mínimo, uma maneira retrógrada de avaliar comportamentos, rejeitando valores por demais judaico-cristãos, repudiando um moralismo mofado ou mesmo criticando uma religião de um deus punitivo, muitos resistem fazendo todas as restrições possíveis.

Quanto engano! Apesar do nome “pecados”, estes conceitos não são oriundos de nenhuma religião. São da psicologia ou talvez da filosofia mas é certo que não pertencem a nenhuma religião. Não é por acaso que o Programa de 12 Passos tem tido mais sucesso do que qualquer outro método na recuperação de dependentes químicos há mais de 70 anos. Os sete pecados capitais são, antes de tudo, um guia sobre comportamentos descontrolados, uma boa indicação para se começar a cuidar de instintos que estão acostumados a se desenfrear, a não ter limites.  São também um bom índice dos desajustes que podem levar um adicto a recair. Pode ser difícil, mas é simples, e seguramente eficiente, começar um trabalho de reformulação identificando e tentando modificar comportamentos e atitudes de:

LUXÚRIA E GULA – por serem comportamentos compulsivos que favorecem e incitam outros comportamentos compulsivos.

AVAREZA – comportamento materialista, egoísta, impede o desenvolvimento da espiritualidade, diminui a fé e aumenta o medo.

PREGUIÇA – comportamento acomodado, favorece  o medo de agir e impede mudanças necessárias.

INVEJA – incentiva e serve de justificativa para a autopiedade, o que gera ressentimento e raiva.

RAIVA – descontrola as emoções, descontrola a vontade e descontrola os instintos.

ORGULHO – comportamento que gera o exagerado medo de errar, atitudes defensivas e “mente fechada”.

Reformulação é um trabalho para a vida toda. Somente quem pagou um alto preço pelo seu uso de drogas enfrentará a árdua tarefa de mudar seu comportamento, seus hábitos, sua vida. Somente quem perdeu mais do que ganhou com as drogas fará, de boa vontade, até mesmo coisas das quais não gosta para proteger sua abstinência. Pois a recuperação só é alcançada quando a abstinência das drogas é somada a uma constante reformulação, uma mudança profunda na maneira de viver. Vivendo um dia de cada vez, aceitando as coisas como são e não como gostaríamos que fossem, e pedindo a Deus coragem para mudar o que podemos. Ω


(*Verônica Barrozo do Amaral é terapeuta e conselheira em dependência química na clínica Solar Day Care, em Laranjeiras, na Zona Sul do Rio.)


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