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O direito de ir e vir

Na minha infância, “artigo” era matéria na aula de português. Classificando os gêneros, meu maior receio era chegar em casa com um boletim indefinido. Já adulto, ressacas acumuladas, conheci o artigo 171, na abreviação carioca, o “sete”, manjado rei da cocada preta, canhotinha de ouro por levar vantagem em tudo. É aquele que vai ao banheiro na hora da conta, inventa um trajeto na carona do amigo pra ficar na esquina de casa. Fila cigarro, bebe cerveja na mesa do outro e, no racha do churrasco, entra com a asa do frango. A seu favor, o prejuízo maior é a irritação. O “sete” é bom de papo, não te cobra a vida, não atropela tua inocência, tampouco rouba a tua agenda digitada no celular.

Estamos vivendo o tempo da Constituição ferida, rasgada em seu princípio mais básico, o direito de ir e vir. Artigo 5 da nossa bíblia democrática, excluindo um suicídio ou outro, só se exerce o justo com segurança a 37 mil pés, numa rota controlada por radares modernos. Não peguei o bonde São Januário, mas o punguista no estribo do vagão era o maior perigo no transporte público. O batedor de carteira se aproveitava do distraído, o avoado com a nobre paisagem do percurso, e, com os dedos em forma de pinça, levava os seus mil réis do leite das crianças.

O tempo passou no Tabuleiro da Baiana, no calçadão de Copacabana, no sinal em frente à Central do Brasil. As galinhas foram pra granja. Os ladrões enxergaram penas em nossas costas e partiram pra dentro. Nossas joias são ovos de ouro. Estamos na crista da onda alheia. Um estrategista urbano propõe UPPs nos metrôs da cidade. A minha estação, Glória, está no mapa das ocupações. Rouba-se à mão armada entre grades, câmeras e escadas rolantes. Os gatunos pulam as roletas feito olímpicos obstáculos nessa cidade de ‘games’ mortais. Às vésperas da grande competição mundial, seguidos recordes são quebrados no cronômetro do dia a dia. Ir e vir de ônibus só Hércules no auge da Odisséia. A pé, no Aterro do Flamengo? Só em caso de eutanásia. Os avisos de atenção parecem pinos vermelhos na tela do Google Maps. Jamais zanzar à noite na Grajaú-Jacarepaguá. Nem descer a Marechal Rondon, as Linhas Vermelha e Amarela, as praias do Recreio, o fim da Avenida Brasil, o Aqueduto da Lapa, ou atravessar o túnel Noel Rosa.

Em tempo, um amigo, em prantos, fechou a capela onde a esposa era velada, no Catumbi. O coveiro sussurrou: “Vai por mim. Outro dia, um governante cheio de boas intenções comunicou que o cidadão poderia levar e conectar gratuitamente seu notebook até as areias da Princesinha do Mar. Cá com os meus botões, levar é mole! Quero ver é trazer de volta”.

Moro numa metrópole, mas vivo em estado de sítio.


FIM

(Moacyr Luz, http://odia.ig.com.br/noticia/opiniao/2015-04-03/moacyr-luz-o-direito-de-ir-e-vir.html)



Tema da redação: direito de ir e vir. Tópicos: levar vantagem em tudo, perigo no transporte público, batedor de carteira, UPPs, estrategista urbano, estado de sítio