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Tempos da enxada e da colheitadeira

As safras de grãos de Goiás cresceram nos últimos anos numa escala expressiva, elevando-se para um nível em torno de 18 milhões de toneladas, mais de 10% da produção nacional, melhorando muito o desempenho da cadeia de negócios da pecuária, de modo geral. O próprio perfil da economia do campo modificou-se substancialmente. Ela se modernizou, rompendo práticas e costumes atrasados, produzindo bons reflexos para todo o conjunto da economia estadual.

Talvez falte aperfeiçoar alguns pontos mais, e assim a economia do campo de Goiás será considerada em condições ideais de competitividade tanto em relação ao mercado consumidor doméstico quanto ao internacional. Ao setor público cabe remover gargalos infraestruturais que possam prejudicar a continuidade deste avanço.

Muitos goianos temiam anos atrás a competição na faixa do Mercosul, que na verdade nunca conseguiu deslanchar, por causa da concorrência dos grãos e das carnes argentinas. Hoje podemos dizer que a produção do campo de Goiás não precisa ter mais medo da concorrência argentina, inclusive quanto ao item qualidade. A propósito, o segmento goiano de laticínios também está produzindo com muita qualidade.

Supriano, por apelido Piano, personagem do conto A Enxada, de Bernardo Élis, é vítima de uma desesperadora carência para poder cumprir a sua parte num sistema de injustas relações de trabalho. O drama de Piano era a falta de uma enxada. A carência do patético personagem desse conto de Bernardo Élis retrata o atraso da agricultura na maior parte do Brasil numa época em que, para citarmos como exemplo, agora oposto, de novo a Argentina, as atividades de cultivo e de criatório no campo já haviam se modernizado com a introdução de tecnologias, e ela se destacava como exportadora de alimentos.

O longo tempo de escravatura e mão de obra escrava certamente atrasou a agricultura brasileira e repassou procedimentos e práticas que continuaram contaminando a economia do campo até décadas mais recentes. Poderíamos inclusive definir a enxada e a colheitadeira como símbolos de ontem e de hoje.

Quando a cultura de algodão, no final do século 18 e no início do século 19, ganhou força no Brasil, porque o mercado internacional se tornara ávido da pluma como matéria-prima da indústria têxtil e de confecções, o País poderia ter se beneficiado muito mais dessa riqueza se usasse métodos mais modernos, como já eram usados nos Estados do sul dos Estados Unidos.

Segundo Caio Prado Júnior, em Formação do Brasil Contemporâneo, o americano Eli Whitney havia inventado o saw-gin, moderníssimo descaroçador do algodão para a época, mas no Brasil continuou sendo empregado um aparelho anacrônico, de origem oriental, a churka.

Caio Prado conta que a cotonicultura americana recorria a prensas para o enfardamento do algodão, e no Brasil o sistema era atrasado e além disso desumano, um método manual: suspendia-se o imenso saco recheado de algodão fofo e nele se metia um negro escravo de boa estatura. O negro, de pé, comprimia o algodão para o fundo com seu peso, repetia-se a operação até que o saco estivesse cheio de algodão comprimido.

Com a melhora da diversificação da infraestrutura de transportes, facilitando e barateando a movimentação das safras aos centros de consumo no País e no exterior, já se pode imaginar essa nova agricultura de Goiás chegando ainda bem mais longe. Bastam mais ousadia e o devido apoio ao produtor, isto incluindo a eliminação dos gargalos e das ineficiências infraestruturais.


FIM

(Hélio Rocha, http://www.opopular.com.br/editorias/opiniao/opini%C3%A3o-1.146391/tempos-da-enxada-e-da-colheitadeira-1.785345)



Tema da redação: enxada. Tópicos: colheitadeira, pecuária, economia, competitividade, mercado consumidor, economia do campo, gargalos infraestruturais, mercosul, produção do campo, laticínios, alimentos, redação dissertativa sobre agricultura, cotonicultura, infraestrutura de transportes