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Lente de cangaceiro

Saco minha lente de olhar o mundo do bornal de couro, herdada de Bem Querer, jagunço do bando de Lampião. Está embaçada, imprestável para o uso. Curiosamente, tem dias em que ela amanhece assim, sem condições de foco, e não há esfregadela em pano macio que resolva o problema. Desconfio que o fenômeno é resultado do acúmulo de notícias ruins nos jornais que dali derivam para o olhar de leitor e colam nos olhos feito conjuntivite.

Nessa condição de vista comprometida pelas agonias do mundo, a lente simplesmente não funciona, sem encontrar tradução para o que vê, por mais que se modifique a posição dela à frente do rosto. O resultado é sempre uma paisagem impressionista, de pinceladas vigorosas e pouco precisas, em que a cena observada se forma pela conjunção das sombras e luzes, não por seus detalhes. Desprovida momentaneamente de lucidez, a lente não confere confiabilidade ao que mostra. Na verdade, a falha está nas minhas pupilas descalibradas pelo contágio das novidades doentes. 

O Brasil, por exemplo, é um borrão disforme. Ajeito a lente o melhor que posso e o escândalo da Petrobrás salta à minha frente como mancha sem contornos nítidos. Tenho certeza de que é ela, a estatal, por alguns sinais: a sensação de calor que me sobe o rosto e o imediato inchaço no fígado. As duas últimas pessoas que ocuparam a presidência da República classificam as denúncias como golpismo da midia e dos adversários. O desconforto hepático piora. Bactéria, companheiro de Bem Querer e autor do diário perdido do bando, sussurra que talvez o delator premiado esteja a serviço da CIA. E desaparece, deixando para trás o eco do seu riso.

A elevação de impostos é roxo-hemorragia, bem desgastado de tanto uso, e me faz lembrar que temos serviços públicos de péssima qualidade e uma das maiores cargas tributárias do mundo. Num volume aparentemente morto esquecido no canto da cena, deputados estaduais anunciam que votarão a volta do auxílio-moradia mesmo para aqueles que moram na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Em amarelo esmaecido aparecem os sinais das crises hídrica e energética. Paolla Oliveira surge, de repente, em trajes sumários. O mais disciplinado entre os jagunços, Raimundo Quelelé, me pede mais concentração.

Descanso a lente sobre a mesa. Me lembro de Vinício Tiso, primo do maestro Wagner, que encheu a noite de sexta-feira com seu violino e a voz empostada. Depois seu riso incontido ao ouvir o público do bar saudá-lo com uma enxurrada de palmas. Vinício, com cabelos de prata penteados para trás, gargalha e repete para si mesmo: “Olha só! Olha só!”. Feito criança em desabalada carreira para empinar papagaio, empunha as castanholas e ponteia o flamenco. As pessoas cantam com ele, riem, tomam vinho e conversam animadamente. Dependurado na cadeira em que Vinício está, descubro um bornal de couro para guardar lentes de olhar o mundo.


FIM

(Chico Mendonça, http://www.hojeemdia.com.br, com modificações nossas para fins didáticos)



Tema da redação: notícias ruins. Tópicos: Brasil, impostos, serviços públicos, carga tributária, auxílio-moradia, crise hídrica, crise energética, redação dissertativa sobre olhar o mundo, lente