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A hora de vestir a fantasia

Na infância, fantasia pra mim era um substantivo pra lá de concreto, aquela roupa que quase todos usávamos no carnaval — pirata, marinheiro, carrasco e bate-bola para meninos; princesa, bailarina, odalisca e vedete para meninas. Fantasia era o que tínhamos que usar para ir aos bailes (no meu caso, os do River e do Pontal) e sair às ruas. Havia até um certo protocolo. No sábado, então chamado de “véspera de carnaval”, vestíamos as fantasias do ano anterior; as novas só deveriam estrear no domingo.

Havia alguns ruídos nessa história. Qual a utilidade das fantasias imensas, cheias de pedras e plumas, usadas nos concursos do Theatro Municipal? Como aqueles sujeitos conseguiriam pular carnaval — o verbo era esse, pular — com toda aquela tralha? Anos depois, descobriria que as fantasias de nomes esquisitos — O imperador da Abissínia no reino encantado de Netuno, O casamento da feiticeira normanda com o boto cor de rosa, O voo solitário do orangotango real — eram até razoáveis diante de outras fantasias, aquelas que, apesar de abstratas, povoam nossas mentes e almas, geram alegrias e frustrações e colaboram para manter cheios os consultórios de psicanalistas.

A fantasia-roupa é uma decorrência da fantasia interna, uma das múltiplas e incontroláveis faces daqueles desejos nem sempre confessáveis. O vestir a fantasia torna-se, assim, algo muito mais complexo do que colocar um tapa-olho e um bigode, e sair por aí. Como o mundo não suportaria uma exposição coletiva e simultânea das fantasias de cada um de nós (“Aquela vizinha do 708, hein? Tão carola, quem diria...”), o jeito foi inventar o carnaval.

Durante o período da festa, ninguém estranha ver o delegado de polícia com roupa de Asterix ou de baiana. Uma espécie de consenso coletivo absolve todas as fantasias carnavalescas — ao se vestir de mulher, um homem não está necessariamente revelando um desejo inconfessável de usar saltos, saias e maquiagem ao longo dos outros 361 dias do ano. Se as fantasias carnavalescas fossem levadas a sério, ninguém teria coragem de olhar para a cara do outro na Quarta-Feira de Cinzas.

No fim das contas, vale a oportunidade de, ao menos por alguns dias, não nos levarmos assim tão a sério. É ótimo passear pela Saara e observar a multidão que busca um personagem; é divertido ver como a impessoalidade do metrô não resiste, como cantou Martinho da Vila, aos sonhos de rei, de pirata e jardineira. Quem ainda não vestiu a sua fantasia deve correr, depois de amanhã não tem mais.


FIM

(Fernando Molica, http://odia.ig.com.br/opiniao/2015-02-16/fernando-molica-a-hora-de-vestir-a-fantasia.html)



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