Faça este curso, porque você precisa aprovar em seu próximo exame, concurso ou vestibular.

A liberdade cega dos pichadores

Não é proibido proibir. No entanto, há proibições que são suavizadas em vista de um objetivo alheio ao bem comum. É o caso de um crime inventado no Brasil: a pichação. Para alguns, um fenômeno distinto das expressões gráficas que acontecem mundo afora, chamadas de grafite.

A distinção entre pichação e grafite aparece em lei sancionada pelo atual governo há 4 anos. De fato, essa lei suaviza e altera lei anterior, de 1998, e prevê pena de três meses a um ano para quem “pichar ou por outro meio conspurcar edificação ou monumento urbano”. E descriminaliza, em parágrafo distinto, o ato de grafitar nos seguintes termos: “Não constitui crime a prática de grafite realizada com o objetivo de valorizar o patrimônio público ou privado mediante manifestação artística, desde que consentida...” O texto da lei continua expondo aqueles que devem dar o consentimento para tal manifestação: proprietários, órgãos públicos etc.

O que chamamos de pichação teve origem em São Paulo, embora o grafite tenha história que remonta à Antiguidade. Foi paradoxalmente a partir do século 20, com o advento da mídia moderna, que esse meio de protesto ganhou força e até certo respaldo social.

Há razões históricas para isso. Com a chegada da Modernidade, a crítica às normas morais, aos valores transmitidos pela sociedade, gerou uma busca de autenticidade que passou a ser praticamente o único valor moral reconhecido por todos. Com efeito, a ojeriza à hipocrisia, ou a qualquer outra atitude moral que não seja uma revelação de autenticidade é marca distintiva de nossa sensibilidade moral.

É fácil verificar, no entanto, que a autenticidade, quando esvaziada de conteúdos significativos para além da referência arbitrária da vontade subjetiva, degrada com rapidez para uma autopromoção e autocomplacência, que eliminam a própria possibilidade do que é moral. Tantos seriam os problemas que essa atitude moral contemporânea traz à nossa cultura, que o filósofo Charles Taylor caracteriza nossas sociedades por certos “mal-estares”. Um deles seria o individualismo exacerbado; outro a noção simplista de liberdade. Esse individualismo manifesta-se também em grupos nos quais seus membros encontram apoio, como, em geral, é o caso dos pichadores.

É possível entender a pichação dentro dessa necessidade de autenticidade individualista e também sectária, travestida de luta social, pois, ao protestar contra a exclusão social, ela gera desintegração social maior e até violência.

Efetivamente, a pichação insere-se neste quadro de violação da convivência pacífica social. Não somente porque degrada o patrimônio público e privado, mas sobretudo porque cria uma cultura de manifestação revolucionária e de revolta gratuitas, aparentada com o ressentimento, e que diminui o exercício da liberdade. De fato, a liberdade supõe o alargamento de horizontes e o reconhecimento de certa herança cultural que integrem os indivíduos da sociedade na realização de um mesmo fim comum.

A liberdade que pretendem os pichadores é cega e abusa do olhar do semelhante, ao impor o que seu próximo deva ver no espaço público e até mesmo em seu espaço privado. É uma liberdade do contra, que é a característica do individualismo das nossas sociedades, ainda que se manifeste em grupos. Ser do contra é ser individualista. E isso é ser pichador.


FIM

(Carlos Frederico Gurgel Calvet da Silveira, http://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/conteudo.phtml?tl=1&id=1530515&tit=A-liberdade-cega-dos-pichadores-, com modificações nossas para fins didáticos)



redação sobre pichadores, liberdade cega, proibir, bem comum, redação dissertativa sobre pichação, expressões gráficas, patrimônio público, redação pronta sobre grafite, manifestação artística, patrimônio privado, mídia moderna, redação dissertativa pronta sobre meio de protesto, modernidade, normas morais, valores sociais, autenticidade, redação sobre valor moral, hipocrisia, atitude moral, sensibilidade moral, redação dissertativa sobre autopromoção, autocomplacência, cultura, individualismo, liberdade, luta social, redação pronta sobre exclusão social, desintegração social, manifestação revolucionária, manifestação de revolta, redação dissertativa pronta sobre violência, convivência pacífica, ressentimento, exercício da liberdade, herança cultural, redação sobre sociedade brasileira