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O valor da descoberta

As amizades são como os namoros: têm seus dias de romance. O começo é como todo começo de amor: com emoção. A emoção do novo, do desconhecido, de ir se apresentando aos poucos e desvendando o que o outro tem de bom. Se houve uma aproximação, houve uma empatia, por isso a atração é inevitável: você se interessa em ouvir o que a pessoa tem a dizer, se interessa em observar o que ela veste, como se porta e até se arrepende por ter cortado no meio aquela frase que ela dizia para falar apressada. Afinal, menos uma informação a respeito do outro, e que você, por educação, não vai perguntar de novo. Porque quando você não conhece, é educado.

Intimidade é uma pedra no sapato dos relacionamentos, sejam que relacionamentos forem: entre amigos, mãe e filho, namorado, marido, caso. Intimidade é aquela coisa: é bom, mas é ruim. Você não escuta mais, não vê, não fica atento a. Acha que já conhece tudo, e isso pode destruir. Já sabe como a pessoa vai se portar — ao menos acha que sabe, não que isso seja necessariamente verdade. Ouve com ouvido de mercador. Um erro.

Já o começo do conhecimento é sempre sentido com entusiasmo. É como o aprendizado e todas as outras descobertas, excitante. Às vezes, em diversos momentos, um exercício muito bom para entender por que você ama tanto alguém é lembrar o que a pessoa tem de bom. O que eu fiz que o atraiu? Eu gostei dele (a) por isso e aquilo. Mas hoje ele (a) não tem mais isso e aquilo. Não tem mesmo ou a intimidade apagou a sua primeira impressão? Ou de repente o que a pessoa tem de bom virou ‘default’.

“Muitas vezes, o que a gente acha que é paixão, na verdade é pressa”, disse Leo Jaime outro dia. “Pressa de sair da situação em que se está, pressa de se apaixonar”. Pensou e falou rapidamente como se estivesse lendo um texto, de tão redondo o raciocínio e a naturalidade com que disse. Perfeito. E completou com algo como “amar dá trabalho”. Porque amar a pessoa tem que querer. Vencer as dificuldades da vida real, que diariamente se apresentam, mesmo nos dias de mais belo mar. E quando você ama, insiste e tem trabalho, lá vem com o melhor o pior, que é o lado ruim da intimidade.

A gente fica tentando mostrar que é bom o tempo todo, que o bem todos os estranhos enxergam, mas quem é íntimo, nem sempre, ou não mais. Isso pode ser complicado. Mas se invertermos a situação, e pararmos de jogar a culpa para o próximo, veremos que nós também podemos ter a postura do novo, nos revelando aos poucos e com delicadeza aos íntimos como fazemos com quem acabamos de conhecer.


FIM

(Karla Rondon Prado, http://odia.ig.com.br/noticia/opiniao/2015-01-28/karla-rondon-prado-o-valor-da-descoberta.html)



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