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A vingança das águas

O leito seco de um rio parece algo improvável, até que um dia o flagelo está a sua frente. Há exatos 10 anos, entrei no leito vazio do Vacacaí Mirim, em Restinga Seca. Andei pelo chão poeirento como se pisasse vísceras de pedras e galhos de um cenário nordestino.

Era estranho imaginar que meses antes corria água por ali e que em algum momento, com o fim da estiagem, a água voltaria a correr.

Caminhei com a professora Lacy Cabral de Oliveira e um neto dela, o Rafael. Os dois me acompanharam numa reportagem sobre a grande seca ocorrida em 2005. Restinga significa ponta de terra cercada por água. Naquele ano, Restinga Seca via sentido no próprio nome.

Andamos um pouco e encontramos uma represa de sacos de areia, de uma margem à outra do rio estreito. Uma espécie de muro que teria sido erguido por um arrozeiro para reter a água perto da bomba de sucção.

Na terra de Iberê Camargo, o rio denunciava a ganância do homem que sugou a água que os outros, mais adiante, ficavam esperando. Os rios Vacacaí Mirim e Vacacaí Grande estavam secos e só o Jacuí continuava socorrendo Restinga.

Me lembrei dessa cena numa conversa no bar da Zero, anteontem, com o Carlos Etchichury, o Renato Dornelles e o Nilson Vargas. Nos perguntamos sobre o que pode acontecer em São Paulo quando o desespero acionar uma guerra pela água.

Em Restinga Seca, onde todo mundo se conhece, alguém foi capaz de erguer uma represa para furtar água. Em São Paulo, a prefeitura calcula que residências e empresas furtaram, em ligações clandestinas, 2,6 bilhões de litros de água potável no ano passado, o suficiente para abastecer 260 mil pessoas durante um mês.

Um advogado paulistano conseguiu na Justiça que a prefeitura lhe garanta água sem cortes em casa. O que mais, além do furto e do egoísmo judicializado, irá aflorar na guerra da seca?

O que será de São Paulo se o que sobrar para mais de 20 milhões de pessoas for a água podre da represa Billings, com bactérias que matam, índice de coliformes fecais cem vezes acima do considerado aceitável e a imundície de metais pesados cancerígenos que despejam ali?

A vingança das águas é cruel e comovente. Que vingança o Rio dos Sinos, o Gravataí e o Caí, três dos 10 rios mais poluídos do Brasil, estarão preparando?


FIM

(MOISÉS MENDES, http://wp.clicrbs.com.br/opiniaozh/?topo=13,1,1,,,13, com modificações nossas para fins didáticos)



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