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Nossos pássaros

Sempre que você pretende escrever algo que pode comprometê-lo, há o truque de colocar a frase ou a ideia na boca ou na cabeça de um amigo. É assim que surgem os amigos nas crônicas. Sempre tem um amigo que fez ou disse tal coisa. Assim você se livra de embaraços.

Pois tenho um amigo de verdade que não entra nas redes sociais por temer que aconteça com ele o que se passou com o filósofo Luiz Felipe Pondé. No ano passado, Pondé debateu bravamente pela internet com uma sexóloga, até alguém alertar que a moça era virtual. Havia sido inventada por um desafeto, só para brigar com o Pondé.

A sexóloga pediu desculpas, antes de evaporar-se, e a briga acabou. Pondé já estava na lona.

No filme Birdman, há uma cena cruel do conflito do protagonista, o homem-pássaro (Michael Keaton), com a filha (Emma Stone). Para humilhar o pai, a moça diz algo como: você não existe, não tem Facebook, não tem Twitter, não tem WhatsApp.

O homem fica tão abalado, que começa a fumar um toco de cigarro de maconha da filha, como se morasse no Uruguai.

Mesmo um cara que já foi super-herói, como o birdman, não é nada se não estiver nas redes. Mas esse meu amigo que ainda não entrou nas redes é confundido com outra pessoa com o mesmo nome, é seguido, é comentado e não sabe o que fazer.

Sabe que é seguido porque algumas pessoas enviam e-mails, essa antiga forma de comunicação. Ele fica constrangido, teme frustrar os que gostam do que estaria escrevendo, mas é do outro.

No Twitter, a situação é pior, porque esse outro publica frases que copia de sites de pensamentos. Como aquelas frases do personagem de Edward Norton (que está cada vez mais parecido com o Leandro Staudt) no mesmo Birdman. Norton diz coisas mais ou menos assim: a popularidade é a prima pobre do prestígio.

Quem coleciona pensamentos sabe que o personagem copiou Oscar Wilde, que teria dito, implacável: para ser popular, é indispensável ser medíocre.

Claro que não é bem assim. Mas ser popular é tudo o que o ex-homem-pássaro não quer ser mais e, involuntariamente, continua sendo.

Esse meu amigo teme entrar nas redes e ficar famoso. Diz que não saberia lidar com a situação. Ele é meio Edward Norton. Mas o que ele teme mesmo é competir com o outro. Cada um com seus problemas e seus pássaros. Eu também não tenho nada daquilo que o homem-pássaro não tinha.


FIM

(MOISÉS MENDES, http://wp.clicrbs.com.br/opiniaozh/?topo=13,1,1,,,13)



Tema da redação: popularidade. Tópicos: redes sociais, internet, conflito pessoal, homem-pássaro, pensamentos, popular